
Biography
Liderado por Alex Malheiros, Azymuth segue renovado em 2026.
“Eu sou o guardião da história do Azymuth”. As palavras de Alex Malheiros saem carregadas de
orgulho e tenacidade genuínos. De fato, o baixista de cabelos grisalhos, voz rouca e dedos
mágicos tem uma missão a cumprir em 2026 e além: manter na ativa a banda que, ao longo de
meio século, tornou-se uma das maiores joias da música instrumental brasileira e da qual ele é
o único remanescente da formação original. “Não temos tempo a perder”, completa, com a
sabedoria e urgência dos seus 79 anos. Com uma nova e flutuante formação – Dudu Vianna nos
teclados e Renato Massa se revezando na bateria – o grupo se mostra, mais uma
vez, disposto a desafiar a passagem do tempo, justo ele, curiosamente nascido em um ambiente
de extrema velocidade.
Na linha de partida, no final dos anos 60, eram Malheiros, o tecladista José Roberto Bertrami e
o baterista Ivan Conti, o Mamão. Os três eram presenças constantes em estúdios de gravação,
acompanhando nomes como Elis Regina, Rita Lee, Eumir Deodato e Raul Seixas. Em 1973, um
convite dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle para a participar da trilha de “O fabuloso
Fittipaldi”, documentário sobre o então piloto campeão da Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, mudou
o rumo da história. Questões contratuais envolvendo Marcos acabaram fazendo com que o trio
ganhasse parte dos créditos do disco — e recebesse o nome de uma das faixas: “Azimuth”, assim
mesmo, com “i”. Mais do que um batismo, ali nascia uma identidade.
Dois anos depois, saiu o álbum de estreia, ainda com a grafia original. A mistura de jazz, funk e
balanço “made in Brazil” já estava ali, mesmo que o grande impulso viesse de “Linha do
horizonte”, faixa com vocais incluída na novela “Cuca legal”. Era a primeira vez que o trio se
ouvia – e era ouvido - por inteiro, sem o rótulo de banda de outros artistas.
Em 1977, já rebatizado como Azymuth, com y, o grupo lançou “Águia não come mosca”,
consolidando o estilo que os três apelidaram, com muito bom humor, de “samba doido”. No
mesmo ano, tornaram-se a primeira banda brasileira a subir ao palco do Festival de Jazz de
Montreux. De lá saíram com uma turnê marcada pelos Estados Unidos ao lado de Airto Moreira
e Flora Purim e um contrato com a Milestone Records, casa de pesos pesados do jazz. A rota
internacional estava traçada.
O auge veio no embalo de “Jazz carnival”, do álbum “Light as a feather”, de 1979, que chegou
perto do topo das paradas britânicas — façanha rara para um tema instrumental. Mas o
percurso teve solavancos: no fim dos anos 80, a saída de Bertrami e desencontros diversos
enfraqueceram a banda, que quase encerrou suas atividades.
A reviravolta aconteceu no próprio Reino Unido, durante a explosão do acid jazz na pistas de
dança. DJs, produtores e músicos como Jamiroquai, Roni Size, 4 Hero e Madlib passaram a
samplear o grupo e citá-lo como referência. O groove do Azymuth — sempre mais físico do que
cerebral — encontrou nova pista e novo fôlego. “Eles entenderam que nosso jazz nunca foi
hermético. Sempre teve pulso”, resume Malheiros.
Com a formação original reunida e a parceria com a gravadora inglesa Far Out, o Azymuth
retomou o voo, em álbuns como “Carnival” (1996), “Before we forget” (2000) e “Butterfly”
(2008). Em 2012, porém, veio um baque com a morte de Bertrami. Mas o samba doido era – e
ainda é – forte demais para parar.
No álbum apropriadamente batizado de “Fênix” (2016), o Azymuth ressurgiu com Kiko
Continentino assumindo os teclados. Logo depois, veio a participação na série “Jazz Is dead”
(2020), ao lado de Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad. As críticas internacionais
reafirmaram o que o público já sabia: o som do Azymuth era brasileiro e, ao mesmo tempo,
universal, enraizado e, ao mesmo tempo, projetado para frente.
Produzido por Daniel Maunick, herdeiro biológico e musical de Jean Paul “Bluey” Maunick, do
celebrado grupo britânico Incognito, “Marca passo” – o álbum mais recente do grupo - abriu um
novo capítulo da história do Azymuth: foi o primeiro trabalho sem Ivan Conti, o Mamão, que
partiu em 2023, sendo substituído por Renato Massa. O álbum trouxe uma regravação de um
clássico do grupo, “Last summer In Rio” (com a participação de “Bluey”) e uma homenagem ao
seu saudoso ritmista, “Samba pro Mamão”. “A perda do Bertrami foi um abalo enorme. Depois
veio o susto com o Mamão. Dói, claro. Mas a música pede continuidade”, reflete Malheiros, que
passou por duas cirurgias em 2026 (uma na garganta e outra para colocar um stent no coração).
E a continuidade vem agora. Com a sensata liberação de Continentino e Massa para seguirem
com seus trabalhos solos durante sua recuperação, Malheiros desenha agora o futuro do
Azymuth. “O Dudu e o Flávio não copiam ninguém, eles conhecem os timbres e as sonoridades
do grupo e adaptam isso aos seus estilos pessoais, o que é ótimo porque traz um novo colorido
para o repertório”, conta ele, que planeja “repor” no segundo semestre uma turnê pela Ásia e
Oceania, cancelada ano passado por suas questões de saúde, seguida depois por shows no
circuito europeu. Nessas apresentações, Massa e Santos vão se revezar na bateria, dependendo
da agenda de cada um deles.
“Temos também um novo disco para fazer com a Far Out”, diz animado. “Me sinto como um
capitão de uma nave que está com a tripulação renovada”.
Carlos Albuquerque
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